“Se a hiperinflação continuasse, o Brasil viveria um novo 1964”

A entrevista deste domingo é com Rubens Ricupero. Homem que ocupava a cadeira de ministro Fazenda quando o real começou a circular, em 1º de julho de 1994. Neste bate-papo com A GAZETA, o ex-ministro revela os bastidores daqueles dias tensos e atribulados que marcaram o início da vitória brasileira sobre a inflação. “Na véspera do lançamento da moeda, eu quase me demiti”. Ele também critica os rumos da atual política econômica. “Estão começando a ameaçar a continuidade do espírito do real”.

Como era o Brasil da época da hiperinflação?

Era uma sociedade que estava sendo destruída por uma inflação que, por exemplo, no fim do governo (José) Sarney (1985-1990) chegou a 85% ao mês. Ou seja, mais de 2% ao dia. Isso eliminava não só qualquer possibilidade de planejamento para investir ou exportar, mas, no caso daqueles que viviam de salários – a maioria da população – fazia com que, como se dizia na época, o salário derretesse no bolso do trabalhador. Na hora que ele recebia o salário, o dinheiro valia muito menos do que aquilo que ele esperava. Se continuássemos naquilo, o Brasil entraria, como já estava entrando, em conflitos distributivos muito graves, nos levando a algo próximo ao que aconteceu em 1964 (ano em que os militares tomaram o poder). Antes do golpe de 1964, o Brasil também viveu um momento muito grave de conflito distributivo por causa do agravamento da inflação.

Como era a vida do brasileiro médio nos anos 80 e início dos 90?

A maioria da população, que era bastante pobre, não tinha defesa. O salário quando era pago valia muito menos. A classe média, que tinha alguma poupança, fazia ginástica financeira. Tinham cadernetas de poupança com datas de aniversário diferentes e aplicavam dinheiro no overnight (aplicação financeira que rendia aos investidores taxas de juros diárias, e não mensais, como habitualmente acontece hoje).

Era uma bagunça, então?

Era uma confusão generalizada, com cada vez mais desespero. Não podemos esquecer que quando chegou o momento do Plano Real, já tinham fracassado seis outros grandes planos (Cruzado, Cruzado II, Bresser, Verão, Collor e Collor II), dos quais dois tinham envolvido mudança da moeda (Cruzado e Collor). Havia a sensação de que se havia tentado tudo e que tudo tinha fracassado. Era como se o Brasil estivesse fadado àquela fatalidade, como se a inflação estivesse no DNA brasileiro. Muito disso porque no nosso caso, diferentemente de outros países, havia a correção monetária, isto é, a indexação generalizada. Com a correção monetária, a inflação brasileira se autoalimentava, porque a cada mês a inflação partia no patamar que havia terminado no mês anterior. A grande ideia desses economistas brilhantes que pensaram o real foi justamente romper essa inércia inflacionária, já que você sempre herdava a inflação do mês anterior. Isso se daria por meio da URV (Unidade Real de Valor). Isso havia sido tentado no Plano Cruzado (1986), mas houve um defeito. Na hora que se introduziu a nova moeda, nem todos os preços estavam no mesmo patamar. Alguns preços ou salários tinham sido reajustados, mas outros estavam atrasados. Quem estava atrasado pressionou, e a experiência foi destruída.

O que era a URV?

A originalidade da ideia foi de fazer com que os preços, salários e tudo mais que estava indexado evoluísse na mesma taxa e ao mesmo tempo. Assim, na hora de introduzir a moeda, que foi o real, todos se encontrariam no mesmo nível (a URV entrou em vigor em 28 de fevereiro de 1994, com a publicação diária dos valores pelo Banco Central. A URV serviu de moeda escritural para todas as transações econômicas, com conversão obrigatória de valores, promovendo uma desindexação geral da economia. Só em 1º de julho de 1994 o real começou a circular). Foi aí, aliás, que eu entrei (30 de março de 1994).

Em termos políticos, qual foi a grande diferença do Plano Real para os demais planos? 

Não teve choque, não teve surpresa, tudo foi anunciado com antecedência. Houve um trabalho sistemático de esclarecer a opinião pública. Eu falava em rede nacional de rádio e TV a cada oito dias. Falava sobre as cédulas, as moedinhas, sobre qual seria a taxa de conversão da moeda antiga para a moeda nova, quanto tempo se tinha para mudar, ou seja, tudo foi bem esclarecido. Não tomamos qualquer medida que pegou as pessoas de surpresa. A população aderiu, participou do processo. Apesar de o plano ser tecnicamente muito bom, o fator principal do êxito foi o fato de que a população assumiu aquele plano e queria que desse certo. Poucos setores, por razões políticas, sobretudo o PT, tentaram jogar contra. Também destaco o fato de não ter tido congelamento de preços. O presidente Itamar era muito cético com relação a isso, mas eu o convenci de que, com a concorrência e com a possibilidade de importação, conseguiríamos controlar o impulso do aumento de preços.

O senhor era o ministro da Fazenda durante a implantação do real. Como foi aquele período? Quais eram seus grandes medos?

Eu era o intermediário entre o presidente Itamar e a equipe (os economistas que pensaram o real). O Itamar, quando me convidou – eu estava muito relutante porque não era a minha área, eu era da área diplomática –, sugeri que ele escolhesse o Edmar Bacha ou o Pedro Malan. Mas ele me deu uma resposta bem mineira: “Nós examinamos todas as alternativas e o senhor é a única opção”. Como sempre trabalhei com mineiros – Santiago Dantas, Afonso Arinos e Tancredo Neves –, traduzi que aquilo significava que ele não queria que fosse uma pessoa da equipe, queria alguém que não fosse apenas ligado ao Fernando Henrique, alguém que dependesse mais do presidente do que do candidato.

Como foi a participação do Itamar?

Embora quisesse muito o êxito do plano, ele tinha uma tendência que era diferente ideologicamente da equipe. A equipe tinha uma visão mais liberal de mercado. A dele era mais nacionalista, mais populista, mais favorável, por exemplo, à UNE (União Nacional dos Estudantes), aos sindicatos. Ele queria muito aumentar o salário mínimo, o salário dos servidores públicos, e a equipe dizia que não podia porque a situação do orçamento era calamitosa. Eu ficava entre isso aí, era o algodão entre os cristais. Me desgastei muito emocionalmente por conta disso. Minha função era ingrata, porque minha função era dizer não.

Como o Itamar reagia aos seus nãos?

Olha, devo dizer que na maioria das vezes eu recebi apoio do Itamar. Na véspera do lançamento da moeda, eu quase me demiti. No dia 30 de junho de 1994, o ministro da Justiça (Alexandre de Paula) Dupeyarat, que era muito ligado ao Itamar, daquele grupo de Juiz de Fora, veio ao Ministério da Fazenda com uma incumbência do presidente que mudava muito o plano. Ele tinha um tom muito ameaçador. Certa altura, quando vi como a coisa estava ficando, me levantei da mesa e, na frente dele, pedi uma ligação para falar com o presidente. Ele (Dupeyarat) então se formalizou e disse: “Vejo que não sou bem-vindo aqui”. Eu respondi: “O senhor será sempre bem-vindo quando vier com considerações jurídicas, da sua pasta. O que vou fazer agora é perguntar ao presidente Itamar quem é o ministro da Fazenda, se é o senhor ou se sou eu”. Não iria aceitar uma coisa daquela. Mas aí o presidente me chamou e tudo se acertou. Esse é mais um exemplo do que passei naqueles dias.

O Itamar Franco disse certa vez que o senhor foi o sacerdote do real, mais até do que o Fernando Henrique.

Acho que ele disse isso muito por conta da campanha de divulgação que fizemos. Esse é um ponto que eu discordo um pouco do que aconteceu depois, no governo Fernando Henrique. Eu me empenhei em transmitir as informações em linguagem simples, longe do ‘economês’, respeitando a inteligência do povo. Mas depois, naquele episódio da parabólica (em 1º de setembro de 1994, uma conversa entre Ricupero e o jornalista Carlos Monforte em que o então ministro disse entre outras coisas: “Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”, acabou vazando. Ricupero entregou o cargo dias depois), quando eu dei muitas entrevistas, estava muito cansado, acabei dizendo muitas bobagens, houve aquele desastre, tenho a impressão de que aquilo levou o pessoal do Fernando Henrique a se recolher. Mas acho que eles acabaram entregando um prato fantástico ao Lula, que acabou fazendo o que eu fazia: fala em linguagem simples. Se hoje muitos dizem que ele se apropriou do êxito, foi porque deixaram.

Hoje, muitos, entre eles a maioria dos que pensaram o plano, afirmam que bases que ergueram o real estão se deteriorando. O senhor concorda com a crítica?

Eles têm razão em muitos aspectos. As despesas governamentais têm crescido muito além do crescimento do PIB. Acho que em grande parte o governo faz isso com boas intenções, a maior parte dessas despesas é de transferências sociais, mas há problemas. Veja o caso do seguro-desemprego e do abono salarial (liberado anualmente aos trabalhadores cadastrados no Programa de Integração Social), que consomem R$ 49 bilhões por ano, quase o dobro do Bolsa Família. São programas que permitem muitas fraudes. Como você explica o fato de, num momento de baixo desemprego, o seguro-desemprego está estourando? Além disso, são generosos demais. O trabalhador com um mês de carteira assinada já tem direito ao abono. Não que ele não precise, mas entre precisar e o governo poder pagar vai uma grande distância. Seja lá quem ganhe as eleições, vai ter que dar uma maneirada, não se pode gastar mais do que a economia cresce.

Vinte anos depois da estabilização, o senhor diria que o Brasil aproveitou as chances abertas pelo real?

Em algumas coisas sim, em outras não. Acho que o Brasil ganhou muito mais racionalidade na abordagem dos problemas econômicos. A Lei de Responsabilidade Fiscal é positiva, mas ela é um daqueles exemplos que estão começando a ameaçar a continuidade do espírito do real. Está sendo enfraquecida, o governo já fez várias arremetidas contra ela. O governo mostra que não está convencido da necessidade da Lei de Responsabilidade Fiscal. No período do Lula, quando houve aquela benesse do aumento dos preços das commodities, não soubemos aproveitar. O dinheiro foi muito mais para o consumo do que para investimentos. Mas, é bom que se diga, não considero o Plano Real algo permanente. Foi um plano para acabar com o perigo da inflação naquele momento, o que veio depois, é depois. O real é a estabilidade. O desenvolvimento, o combate à pobreza, a educação e todo resto não fazem parte do real. É a continuação do Brasil.

O senhor é um crítico do que chamou, em artigo publicado em abril do ano passado, de ‘desgoverno brasileiro’. O que é isso?

Não temos estratégia de médio e longo prazos. O país precisa saber o que quer ser quando crescer. O que vemos hoje é muita improvisação do dia a dia. Veja que a presidente Dilma começou um movimento para baixar os juros, mas fez isso precipitadamente e os juros voltaram a subir. Não há continuidade, não há rumo.

Quem é o pai do real?

Do ponto de vista político, é o Itamar. Ele era o presidente. Sem Itamar não existiria Fernando Henrique. O Itamar vem sendo muito subestimado, mas ele era mais ou menos como o (Ronald) Reagan (presidiu os EUA entre 1981 e 1989). Tinha duas ou três ideias claras e ele as perseguia. Ele tinha certeza de que era possível debelar a inflação, e foi até o fim. O Fernando Henrique, que era ministro do Exterior, teve a coragem de assumir. Era o único que, graças ao prestígio acadêmico, conseguiria atrair aquela equipe de primeira linha. A equipe também teve muito mérito. Tem outro personagem que não pode ser menosprezado, a população brasileira, que queria acabar com aquilo. É uma obra coletiva, mas o mérito principal é do Itamar e do Fernando Henrique.

Fonte: Gazeta Online

“Se a hiperinflação continuasse, o Brasil viveria um novo 1964”

A entrevista deste domingo é com Rubens Ricupero. Homem que ocupava a cadeira de ministro Fazenda quando o real começou a circular, em 1º de julho de 1994. Neste bate-papo com A GAZETA, o ex-ministro revela os bastidores daqueles dias tensos e atribulados que marcaram o início da vitória brasileira sobre a inflação. “Na véspera do lançamento da moeda, eu quase me demiti”. Ele também critica os rumos da atual política econômica. “Estão começando a ameaçar a continuidade do espírito do real”.

Como era o Brasil da época da hiperinflação?

Era uma sociedade que estava sendo destruída por uma inflação que, por exemplo, no fim do governo (José) Sarney (1985-1990) chegou a 85% ao mês. Ou seja, mais de 2% ao dia. Isso eliminava não só qualquer possibilidade de planejamento para investir ou exportar, mas, no caso daqueles que viviam de salários – a maioria da população – fazia com que, como se dizia na época, o salário derretesse no bolso do trabalhador. Na hora que ele recebia o salário, o dinheiro valia muito menos do que aquilo que ele esperava. Se continuássemos naquilo, o Brasil entraria, como já estava entrando, em conflitos distributivos muito graves, nos levando a algo próximo ao que aconteceu em 1964 (ano em que os militares tomaram o poder). Antes do golpe de 1964, o Brasil também viveu um momento muito grave de conflito distributivo por causa do agravamento da inflação.

Como era a vida do brasileiro médio nos anos 80 e início dos 90?

A maioria da população, que era bastante pobre, não tinha defesa. O salário quando era pago valia muito menos. A classe média, que tinha alguma poupança, fazia ginástica financeira. Tinham cadernetas de poupança com datas de aniversário diferentes e aplicavam dinheiro no overnight (aplicação financeira que rendia aos investidores taxas de juros diárias, e não mensais, como habitualmente acontece hoje).

Era uma bagunça, então?

Era uma confusão generalizada, com cada vez mais desespero. Não podemos esquecer que quando chegou o momento do Plano Real, já tinham fracassado seis outros grandes planos (Cruzado, Cruzado II, Bresser, Verão, Collor e Collor II), dos quais dois tinham envolvido mudança da moeda (Cruzado e Collor). Havia a sensação de que se havia tentado tudo e que tudo tinha fracassado. Era como se o Brasil estivesse fadado àquela fatalidade, como se a inflação estivesse no DNA brasileiro. Muito disso porque no nosso caso, diferentemente de outros países, havia a correção monetária, isto é, a indexação generalizada. Com a correção monetária, a inflação brasileira se autoalimentava, porque a cada mês a inflação partia no patamar que havia terminado no mês anterior. A grande ideia desses economistas brilhantes que pensaram o real foi justamente romper essa inércia inflacionária, já que você sempre herdava a inflação do mês anterior. Isso se daria por meio da URV (Unidade Real de Valor). Isso havia sido tentado no Plano Cruzado (1986), mas houve um defeito. Na hora que se introduziu a nova moeda, nem todos os preços estavam no mesmo patamar. Alguns preços ou salários tinham sido reajustados, mas outros estavam atrasados. Quem estava atrasado pressionou, e a experiência foi destruída.

O que era a URV?

A originalidade da ideia foi de fazer com que os preços, salários e tudo mais que estava indexado evoluísse na mesma taxa e ao mesmo tempo. Assim, na hora de introduzir a moeda, que foi o real, todos se encontrariam no mesmo nível (a URV entrou em vigor em 28 de fevereiro de 1994, com a publicação diária dos valores pelo Banco Central. A URV serviu de moeda escritural para todas as transações econômicas, com conversão obrigatória de valores, promovendo uma desindexação geral da economia. Só em 1º de julho de 1994 o real começou a circular). Foi aí, aliás, que eu entrei (30 de março de 1994).

Em termos políticos, qual foi a grande diferença do Plano Real para os demais planos? 

Não teve choque, não teve surpresa, tudo foi anunciado com antecedência. Houve um trabalho sistemático de esclarecer a opinião pública. Eu falava em rede nacional de rádio e TV a cada oito dias. Falava sobre as cédulas, as moedinhas, sobre qual seria a taxa de conversão da moeda antiga para a moeda nova, quanto tempo se tinha para mudar, ou seja, tudo foi bem esclarecido. Não tomamos qualquer medida que pegou as pessoas de surpresa. A população aderiu, participou do processo. Apesar de o plano ser tecnicamente muito bom, o fator principal do êxito foi o fato de que a população assumiu aquele plano e queria que desse certo. Poucos setores, por razões políticas, sobretudo o PT, tentaram jogar contra. Também destaco o fato de não ter tido congelamento de preços. O presidente Itamar era muito cético com relação a isso, mas eu o convenci de que, com a concorrência e com a possibilidade de importação, conseguiríamos controlar o impulso do aumento de preços.

O senhor era o ministro da Fazenda durante a implantação do real. Como foi aquele período? Quais eram seus grandes medos?

Eu era o intermediário entre o presidente Itamar e a equipe (os economistas que pensaram o real). O Itamar, quando me convidou – eu estava muito relutante porque não era a minha área, eu era da área diplomática –, sugeri que ele escolhesse o Edmar Bacha ou o Pedro Malan. Mas ele me deu uma resposta bem mineira: “Nós examinamos todas as alternativas e o senhor é a única opção”. Como sempre trabalhei com mineiros – Santiago Dantas, Afonso Arinos e Tancredo Neves –, traduzi que aquilo significava que ele não queria que fosse uma pessoa da equipe, queria alguém que não fosse apenas ligado ao Fernando Henrique, alguém que dependesse mais do presidente do que do candidato.

Como foi a participação do Itamar?

Embora quisesse muito o êxito do plano, ele tinha uma tendência que era diferente ideologicamente da equipe. A equipe tinha uma visão mais liberal de mercado. A dele era mais nacionalista, mais populista, mais favorável, por exemplo, à UNE (União Nacional dos Estudantes), aos sindicatos. Ele queria muito aumentar o salário mínimo, o salário dos servidores públicos, e a equipe dizia que não podia porque a situação do orçamento era calamitosa. Eu ficava entre isso aí, era o algodão entre os cristais. Me desgastei muito emocionalmente por conta disso. Minha função era ingrata, porque minha função era dizer não.

Como o Itamar reagia aos seus nãos?

Olha, devo dizer que na maioria das vezes eu recebi apoio do Itamar. Na véspera do lançamento da moeda, eu quase me demiti. No dia 30 de junho de 1994, o ministro da Justiça (Alexandre de Paula) Dupeyarat, que era muito ligado ao Itamar, daquele grupo de Juiz de Fora, veio ao Ministério da Fazenda com uma incumbência do presidente que mudava muito o plano. Ele tinha um tom muito ameaçador. Certa altura, quando vi como a coisa estava ficando, me levantei da mesa e, na frente dele, pedi uma ligação para falar com o presidente. Ele (Dupeyarat) então se formalizou e disse: “Vejo que não sou bem-vindo aqui”. Eu respondi: “O senhor será sempre bem-vindo quando vier com considerações jurídicas, da sua pasta. O que vou fazer agora é perguntar ao presidente Itamar quem é o ministro da Fazenda, se é o senhor ou se sou eu”. Não iria aceitar uma coisa daquela. Mas aí o presidente me chamou e tudo se acertou. Esse é mais um exemplo do que passei naqueles dias.

O Itamar Franco disse certa vez que o senhor foi o sacerdote do real, mais até do que o Fernando Henrique.

Acho que ele disse isso muito por conta da campanha de divulgação que fizemos. Esse é um ponto que eu discordo um pouco do que aconteceu depois, no governo Fernando Henrique. Eu me empenhei em transmitir as informações em linguagem simples, longe do ‘economês’, respeitando a inteligência do povo. Mas depois, naquele episódio da parabólica (em 1º de setembro de 1994, uma conversa entre Ricupero e o jornalista Carlos Monforte em que o então ministro disse entre outras coisas: “Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”, acabou vazando. Ricupero entregou o cargo dias depois), quando eu dei muitas entrevistas, estava muito cansado, acabei dizendo muitas bobagens, houve aquele desastre, tenho a impressão de que aquilo levou o pessoal do Fernando Henrique a se recolher. Mas acho que eles acabaram entregando um prato fantástico ao Lula, que acabou fazendo o que eu fazia: fala em linguagem simples. Se hoje muitos dizem que ele se apropriou do êxito, foi porque deixaram.

Hoje, muitos, entre eles a maioria dos que pensaram o plano, afirmam que bases que ergueram o real estão se deteriorando. O senhor concorda com a crítica?

Eles têm razão em muitos aspectos. As despesas governamentais têm crescido muito além do crescimento do PIB. Acho que em grande parte o governo faz isso com boas intenções, a maior parte dessas despesas é de transferências sociais, mas há problemas. Veja o caso do seguro-desemprego e do abono salarial (liberado anualmente aos trabalhadores cadastrados no Programa de Integração Social), que consomem R$ 49 bilhões por ano, quase o dobro do Bolsa Família. São programas que permitem muitas fraudes. Como você explica o fato de, num momento de baixo desemprego, o seguro-desemprego está estourando? Além disso, são generosos demais. O trabalhador com um mês de carteira assinada já tem direito ao abono. Não que ele não precise, mas entre precisar e o governo poder pagar vai uma grande distância. Seja lá quem ganhe as eleições, vai ter que dar uma maneirada, não se pode gastar mais do que a economia cresce.

Vinte anos depois da estabilização, o senhor diria que o Brasil aproveitou as chances abertas pelo real?

Em algumas coisas sim, em outras não. Acho que o Brasil ganhou muito mais racionalidade na abordagem dos problemas econômicos. A Lei de Responsabilidade Fiscal é positiva, mas ela é um daqueles exemplos que estão começando a ameaçar a continuidade do espírito do real. Está sendo enfraquecida, o governo já fez várias arremetidas contra ela. O governo mostra que não está convencido da necessidade da Lei de Responsabilidade Fiscal. No período do Lula, quando houve aquela benesse do aumento dos preços das commodities, não soubemos aproveitar. O dinheiro foi muito mais para o consumo do que para investimentos. Mas, é bom que se diga, não considero o Plano Real algo permanente. Foi um plano para acabar com o perigo da inflação naquele momento, o que veio depois, é depois. O real é a estabilidade. O desenvolvimento, o combate à pobreza, a educação e todo resto não fazem parte do real. É a continuação do Brasil.

O senhor é um crítico do que chamou, em artigo publicado em abril do ano passado, de ‘desgoverno brasileiro’. O que é isso?

Não temos estratégia de médio e longo prazos. O país precisa saber o que quer ser quando crescer. O que vemos hoje é muita improvisação do dia a dia. Veja que a presidente Dilma começou um movimento para baixar os juros, mas fez isso precipitadamente e os juros voltaram a subir. Não há continuidade, não há rumo.

Quem é o pai do real?

Do ponto de vista político, é o Itamar. Ele era o presidente. Sem Itamar não existiria Fernando Henrique. O Itamar vem sendo muito subestimado, mas ele era mais ou menos como o (Ronald) Reagan (presidiu os EUA entre 1981 e 1989). Tinha duas ou três ideias claras e ele as perseguia. Ele tinha certeza de que era possível debelar a inflação, e foi até o fim. O Fernando Henrique, que era ministro do Exterior, teve a coragem de assumir. Era o único que, graças ao prestígio acadêmico, conseguiria atrair aquela equipe de primeira linha. A equipe também teve muito mérito. Tem outro personagem que não pode ser menosprezado, a população brasileira, que queria acabar com aquilo. É uma obra coletiva, mas o mérito principal é do Itamar e do Fernando Henrique.

Fonte: Gazeta Online

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