“Não fosse a ditadura, estaríamos melhores”, acreditam especialistas

A razão para algumas bandeiras sociais de 50 anos continuarem na ordem do dia pode ser o próprio regime militar de 1964. Segundo estudiosos, a ditadura limitou desenvolvimento equilibrado do país.

Luiz Cláudio Ribeiro, professor de História da Ufes, diz que a principal consequência do governo militar não é o “milagre econômico”. É a desigualdade social.

“Não fosse, a ditadura, estaríamos melhores, no patamar dos países desenvolvidos. Militares passaram ao país doutrina conservadora e violenta”, afirma.

Entre 1967 e 1973, o PIB cresceu a uma taxa média anual de 10%. Em contrapartida, o índice de salário mínimo real caiu de 100, em 1964, para 82, em 1977. E a dívida externa ultrapassou os US$ 90 bilhões em 1985. No início do governo de Castelo Branco, o primeiro ditador do país, o endividamento era inferior a US$ 10 bilhões, segundo dados do Ipea.

“É uma falácea dizer que precisamos de ditadura para nos desenvolvermos. Um governo democrático poderia ter feito melhor. Se não fosse ela, teríamos democracia melhor, cidadãos mais participativos e conscientes”, afirma o professor de História da UFMG, Rodrigo Patto Sá Motta.

Avanços

Os ex-estudantes da Ufes que sofreram na pele as perseguições de militares hoje comemoram e elencam melhorias do país da redemocratização.

O médico Iran Caetano, preso diversas vezes pela relação com o movimento estudantil, critica a interrupção do processo de desenvolvimento social, em 1964. “Se Jango tivesse continuado com as reformas, talvez não tivéssemos vivendo quadro de violências e atrasos múltiplos. A ditadura foi um atraso“, disse.

O atual reitor da Ufes, Reinaldo Centoducatte, era calouro da Engenharia Elétrica, em 1974. Ele também pontuou avanços e citou o desenvolvimento tardio do país. “Hoje as liberdades estão em outro nível. As pessoas se manifestam, não fazem reuniões escondidas”, disse.

Eleição direta só 25 anos depois

O general Ernesto Geisel assumiu o país em 1974 prometendo uma reabertura política “lenta, gradual e segura”. O militar acertou no “lenta” e a sociedade brasileira precisou passar ainda por longos anos de cerceamento amplo e irrestrito.

Apenas em 1984, o movimento das Diretas Já ganhou as ruas para reivindicar eleições diretas para presidente. Em 1985, Tancredo Neves foi eleito indiretamente. O povo não votou, mas comemorou. O mineiro era contra os militares.

Mais tarde, novo choque: Tancredo morreu antes de assumir e o cargo de presidente ficou com o vice, José Sarney. A escolha direta de presidente foi retomada em 1989, 25 anos após o golpe militar.

Minha história com a ditadura

“Ter sido torturado e preso não abalou meus princípios” Antônio Caldas Brito

Diretor do IPAJM, ex-presidente do Procon e do Bandes

 

Ele foi tirado do Estado e torturado

Entrei na Ufes em 1965. Pela participação no movimento estudantil, fui preso algumas vezes. Na última, era da ala vermelha do PCdoB, fui preso e levado para São Paulo em avião da FAB. Fui um dos poucos capixabas que conheceram a Operação Bandeirante. No Exército, fomos torturados com choques, “telefone”, pancadas nas pernas. Não tinha acusação nenhuma. Isso dá uma ideia do que era a ditadura na época. Acompanharam todos os passos da minha vida. Não me arrependendo de ter participado dessa luta. Graças a esse sacrifício de muitos braslieiros temos liberdade de falar e votar. O fato de ter sido torturado e preso não abalou meus princípios.

 

Um obstáculo para o crescimento do país

“Estamos tendo que consolidar quadro democrático em meio a problemas sociais”

Reinaldo Centoducatte, Reitor da Ufes.

“Não fosse a ditadura, estaríamos melhores, no patamar dos países desenvolvidos”

Luiz Cláudio Ribeiro, Historiador

“Até hoje não engrenaram as propostas que nos levariam pra frente. Elas são obrigatórias” Iran Caetano, Médico, ex-preso político

“Se muitas reformas de base fossem colocadas em prática, o Brasil passaria por grande crescimento” Fernando Pignaton, Cientista Político

Fonte: Gazeta Online

 

 

“Não fosse a ditadura, estaríamos melhores”, acreditam especialistas

A razão para algumas bandeiras sociais de 50 anos continuarem na ordem do dia pode ser o próprio regime militar de 1964. Segundo estudiosos, a ditadura limitou desenvolvimento equilibrado do país.

Luiz Cláudio Ribeiro, professor de História da Ufes, diz que a principal consequência do governo militar não é o “milagre econômico”. É a desigualdade social.

“Não fosse, a ditadura, estaríamos melhores, no patamar dos países desenvolvidos. Militares passaram ao país doutrina conservadora e violenta”, afirma.

Entre 1967 e 1973, o PIB cresceu a uma taxa média anual de 10%. Em contrapartida, o índice de salário mínimo real caiu de 100, em 1964, para 82, em 1977. E a dívida externa ultrapassou os US$ 90 bilhões em 1985. No início do governo de Castelo Branco, o primeiro ditador do país, o endividamento era inferior a US$ 10 bilhões, segundo dados do Ipea.

“É uma falácea dizer que precisamos de ditadura para nos desenvolvermos. Um governo democrático poderia ter feito melhor. Se não fosse ela, teríamos democracia melhor, cidadãos mais participativos e conscientes”, afirma o professor de História da UFMG, Rodrigo Patto Sá Motta.

Avanços

Os ex-estudantes da Ufes que sofreram na pele as perseguições de militares hoje comemoram e elencam melhorias do país da redemocratização.

O médico Iran Caetano, preso diversas vezes pela relação com o movimento estudantil, critica a interrupção do processo de desenvolvimento social, em 1964. “Se Jango tivesse continuado com as reformas, talvez não tivéssemos vivendo quadro de violências e atrasos múltiplos. A ditadura foi um atraso“, disse.

O atual reitor da Ufes, Reinaldo Centoducatte, era calouro da Engenharia Elétrica, em 1974. Ele também pontuou avanços e citou o desenvolvimento tardio do país. “Hoje as liberdades estão em outro nível. As pessoas se manifestam, não fazem reuniões escondidas”, disse.

Eleição direta só 25 anos depois

O general Ernesto Geisel assumiu o país em 1974 prometendo uma reabertura política “lenta, gradual e segura”. O militar acertou no “lenta” e a sociedade brasileira precisou passar ainda por longos anos de cerceamento amplo e irrestrito.

Apenas em 1984, o movimento das Diretas Já ganhou as ruas para reivindicar eleições diretas para presidente. Em 1985, Tancredo Neves foi eleito indiretamente. O povo não votou, mas comemorou. O mineiro era contra os militares.

Mais tarde, novo choque: Tancredo morreu antes de assumir e o cargo de presidente ficou com o vice, José Sarney. A escolha direta de presidente foi retomada em 1989, 25 anos após o golpe militar.

Minha história com a ditadura

“Ter sido torturado e preso não abalou meus princípios” Antônio Caldas Brito

Diretor do IPAJM, ex-presidente do Procon e do Bandes

 

Ele foi tirado do Estado e torturado

Entrei na Ufes em 1965. Pela participação no movimento estudantil, fui preso algumas vezes. Na última, era da ala vermelha do PCdoB, fui preso e levado para São Paulo em avião da FAB. Fui um dos poucos capixabas que conheceram a Operação Bandeirante. No Exército, fomos torturados com choques, “telefone”, pancadas nas pernas. Não tinha acusação nenhuma. Isso dá uma ideia do que era a ditadura na época. Acompanharam todos os passos da minha vida. Não me arrependendo de ter participado dessa luta. Graças a esse sacrifício de muitos braslieiros temos liberdade de falar e votar. O fato de ter sido torturado e preso não abalou meus princípios.

 

Um obstáculo para o crescimento do país

“Estamos tendo que consolidar quadro democrático em meio a problemas sociais”

Reinaldo Centoducatte, Reitor da Ufes.

“Não fosse a ditadura, estaríamos melhores, no patamar dos países desenvolvidos”

Luiz Cláudio Ribeiro, Historiador

“Até hoje não engrenaram as propostas que nos levariam pra frente. Elas são obrigatórias” Iran Caetano, Médico, ex-preso político

“Se muitas reformas de base fossem colocadas em prática, o Brasil passaria por grande crescimento” Fernando Pignaton, Cientista Político

Fonte: Gazeta Online