A competência que você pensa que tem

Vivemos uma democracia que orienta as discussões sobre todo e qualquer tema, pelo menos no Brasil.

Parece haver um consenso junto à sociedade que o correto a ser feito é sempre abrir a discussão (qualquer que seja) para uma ampla gama de pessoas, colhendo assim uma abordagem multilateral e ampla sobre o tema em questão.

E esta abordagem ficou ainda mais fácil de ser estabelecida com a utilização das mídias sociais. Em minutos, notícias e “verdades” são curtidas, compartilhadas e retweetadas fazendo com que a veracidade dos fatos às vezes fique condicionada ao número de curtidas ou ao número de compartilhamentos que a notícia teve. É frequente ouvirmos “está todo mundo falando”, “tá bombando no Twitter”, etc.

Por isso, acredito que podemos afirmar que a disseminação de informações e as discussões (principalmente online) nunca antes foram tão democráticas, o que é muito positivo.
Mas – por outro lado – sem um incremento da educação e do nível intelectual, a liberdade total nas discussões pode se tornar a catalisadora de discursos narcisistas que simplesmente acham verdadeiras ou coerentes as opiniões que corroboram seu ponto de vista atual.

Para mim, a democratização nas discussões nos levou a uma redução na criticidade e na argumentação dos debates e – consequentemente – na profundidade deles. Quando falamos das mídias sociais, isto é ainda mais presente: o volume de curtidas ou retweets corrobora uma opinião ou outra, mas não promove a discussão ou a argumentação para o incremento da criticidade. Ficamos rasos e chulos.
Perdemos todos. De todos os lados.

Um risco adicional é que o mesmo movimento permeia as empresas. A democracia que prevê que todos deem sua opinião ou participem nas discussões da empresa, pode gerar um empobrecimento das discussões e consequente perda de competitividade.

Pode ser polêmico, mas é como penso: para dar opinião, discordar ou concordar com algo, é preciso ter minimamente informações sobre o assunto que se está discutindo. A construção se dá na argumentação e na escuta ativa de opiniões contrárias. E escutar ativamente é de fato se colocar no lugar daquele que pensa e opina diferentemente de você.

O desdobramento do que quero dizer – ao menos no âmbito corporativo – se dá na criação de espaços para discussões construtivas, onde há de fato a discussão e a argumentação. É preciso construir um blend das opiniões nem sempre convergentes. É lógico que é difícil, mas é o que vai garantir a sobrevivência em um mercado cada vez mais complexo.

Você pode pensar que em sua empresa existem comitês e reuniões semanais e mensais pré-definidas, mas na minha experiência, as reuniões corporativas se tornaram espaços onde executivos defendem seus “espaços corporativos” e tentam convencer o lado discordante de sua ideia pré-concebida. Isto não traz construção. É tão raso quanto as discussões nas redes sociais que falávamos no texto acima. E acredite em mim, se há um consenso entre os executivos, este é que as reuniões nas empresas são – muitas vezes – fóruns de cartas previamente marcadas e discussões narcisistas para defesa de território. Quem perde é a empresa.

Qual a solução? Para mim a principal é a educação. Sim, isto mesmo, maior capacitação. De maneira geral, nós brasileiros – mesmo os profissionais em nível executivo – lemos pouco, discutimos pouco, ouvimos poucas opiniões contrárias às nossas e construímos poucos novos conceitos.

Mesmo no nível executivo, a educação é tema pouco abordado e parece não ser um diferencial. Quando em minhas entrevistas pergunto “o que você vem estudando ultimamente” geralmente não há resposta por parte do executivo.
O mais comum, é verificar um esforço de educação formal no início da carreira, que logo depois é abandonado. E somente os treinamentos dados pelo RH da empresa não são sufientes. Há de se ter uma consciência que ocupar uma cadeira executiva pressupõe estudar constantemente!

O mundo está complexo, os mercados globalizados, entender os consumidores é quase impossível e somente uma boa ideia nem de longe é suficiente.

Sim, a carga horária de um executivo é puxada, temos ainda compromissos sociais, familiares e necessidades pessoais de entretenimento. Mas, ao meu ver, é uma questão de sobrevivência. Não há atalhos para o conhecimento. Os atalhos levam a generalizações e falta de profundidade, que já comentamos antes.

Se a educação deve ser a prioridade na construção do Brasil como país, devemos fazer dela também uma prioridade no âmbito onde os decisores somos unicamente nós mesmos.

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Fonte: EXAME

A competência que você pensa que tem

Vivemos uma democracia que orienta as discussões sobre todo e qualquer tema, pelo menos no Brasil.

Parece haver um consenso junto à sociedade que o correto a ser feito é sempre abrir a discussão (qualquer que seja) para uma ampla gama de pessoas, colhendo assim uma abordagem multilateral e ampla sobre o tema em questão.

E esta abordagem ficou ainda mais fácil de ser estabelecida com a utilização das mídias sociais. Em minutos, notícias e “verdades” são curtidas, compartilhadas e retweetadas fazendo com que a veracidade dos fatos às vezes fique condicionada ao número de curtidas ou ao número de compartilhamentos que a notícia teve. É frequente ouvirmos “está todo mundo falando”, “tá bombando no Twitter”, etc.

Por isso, acredito que podemos afirmar que a disseminação de informações e as discussões (principalmente online) nunca antes foram tão democráticas, o que é muito positivo.
Mas – por outro lado – sem um incremento da educação e do nível intelectual, a liberdade total nas discussões pode se tornar a catalisadora de discursos narcisistas que simplesmente acham verdadeiras ou coerentes as opiniões que corroboram seu ponto de vista atual.

Para mim, a democratização nas discussões nos levou a uma redução na criticidade e na argumentação dos debates e – consequentemente – na profundidade deles. Quando falamos das mídias sociais, isto é ainda mais presente: o volume de curtidas ou retweets corrobora uma opinião ou outra, mas não promove a discussão ou a argumentação para o incremento da criticidade. Ficamos rasos e chulos.
Perdemos todos. De todos os lados.

Um risco adicional é que o mesmo movimento permeia as empresas. A democracia que prevê que todos deem sua opinião ou participem nas discussões da empresa, pode gerar um empobrecimento das discussões e consequente perda de competitividade.

Pode ser polêmico, mas é como penso: para dar opinião, discordar ou concordar com algo, é preciso ter minimamente informações sobre o assunto que se está discutindo. A construção se dá na argumentação e na escuta ativa de opiniões contrárias. E escutar ativamente é de fato se colocar no lugar daquele que pensa e opina diferentemente de você.

O desdobramento do que quero dizer – ao menos no âmbito corporativo – se dá na criação de espaços para discussões construtivas, onde há de fato a discussão e a argumentação. É preciso construir um blend das opiniões nem sempre convergentes. É lógico que é difícil, mas é o que vai garantir a sobrevivência em um mercado cada vez mais complexo.

Você pode pensar que em sua empresa existem comitês e reuniões semanais e mensais pré-definidas, mas na minha experiência, as reuniões corporativas se tornaram espaços onde executivos defendem seus “espaços corporativos” e tentam convencer o lado discordante de sua ideia pré-concebida. Isto não traz construção. É tão raso quanto as discussões nas redes sociais que falávamos no texto acima. E acredite em mim, se há um consenso entre os executivos, este é que as reuniões nas empresas são – muitas vezes – fóruns de cartas previamente marcadas e discussões narcisistas para defesa de território. Quem perde é a empresa.

Qual a solução? Para mim a principal é a educação. Sim, isto mesmo, maior capacitação. De maneira geral, nós brasileiros – mesmo os profissionais em nível executivo – lemos pouco, discutimos pouco, ouvimos poucas opiniões contrárias às nossas e construímos poucos novos conceitos.

Mesmo no nível executivo, a educação é tema pouco abordado e parece não ser um diferencial. Quando em minhas entrevistas pergunto “o que você vem estudando ultimamente” geralmente não há resposta por parte do executivo.
O mais comum, é verificar um esforço de educação formal no início da carreira, que logo depois é abandonado. E somente os treinamentos dados pelo RH da empresa não são sufientes. Há de se ter uma consciência que ocupar uma cadeira executiva pressupõe estudar constantemente!

O mundo está complexo, os mercados globalizados, entender os consumidores é quase impossível e somente uma boa ideia nem de longe é suficiente.

Sim, a carga horária de um executivo é puxada, temos ainda compromissos sociais, familiares e necessidades pessoais de entretenimento. Mas, ao meu ver, é uma questão de sobrevivência. Não há atalhos para o conhecimento. Os atalhos levam a generalizações e falta de profundidade, que já comentamos antes.

Se a educação deve ser a prioridade na construção do Brasil como país, devemos fazer dela também uma prioridade no âmbito onde os decisores somos unicamente nós mesmos.

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Fonte: EXAME